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—– Para dizer a verdade —–

terça-feira, 18 de agosto de 2009 por Bruno Rodrigues

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(de minha coluna ‘Conteúdo Digital’ – site ‘Nós da Comunicação’)

chris_anderson Eu não gosto de Chris Anderson, mas admiro Chris Anderson. Sei que parece loucura, mas é assim. Há alguns anos, Anderson – editor da famosa revista de tecnologia ‘Wired’ – lançou o livro ‘A cauda longa’, que se tornaria um marco da virada 2.0 da web. Foi um sucesso. Ele ampliava horizontes e vaticinava: há mercado para todos na internet, dos pequenos aos grandes, basta conhecer os públicos a fundo. Adorei, e tudo o que se anunciava tornou-se verdade. Foi meu momento ‘Chris Anderson é Deus’.

Hoje, Chris Anderson me irrita. Tudo culpa – pasmem – da internet: há algumas semanas, li na businessweek.com que, pessoalmente, Anderson se acha Deus. Na matéria, confessa nunca ter tido vontade de ser editor do wired.com (para fazer uma dobradinha promissora com a revista, imaginem como seria fantástico!), deixando pasmos fãs do mundo inteiro; para ele, já basta a revista impressa. Por favor! E foi sincero quando disse que prefere mil vezes rodar o mundo dando palestras – e ganhando rios de dinheiro –, conhecendo pessoas e checando novas tecnologias a enclausurar-se em uma redação.

Por isso, não gosto de Chris Anderson, mas admiro Chris Anderson. Afinal, ele faz o que acha que tem de ser feito e segue em frente. Agora, por exemplo, ele acaba de lançar um novo livro, ‘Free’, que só não está fazendo o sucesso que merece pelo simples fato de apresentar ideias que metem medo – e como. Na obra, Anderson apenas ajuda a libertar o que o mercado mantém amordaçado faz anos no fundo do armário: o grito de liberdade que tudo quanto é bit – livro, música e filme – está louco para dar há tempos. Chris Anderson aumenta o som e anuncia: esqueçam o comércio de arquivos, eles agora são commodities. Para se ganhar dinheiro, é daí em diante. Não se controla a web nem o que trafega nela – é isso.

As ideias de Anderson são bem-vindas quando apontam caminhos ou dão esperança, como foi o caso em ‘A cauda longa’. Com ‘Free’, vem o arrepio e a dúvida de qual caminho tomar. Chris Anderson apenas diz a verdade, e isso incomoda – a mim e, pelo jeito, a uma penca de gente que agora me faz companhia.

Freud explica: se algo nos incomoda, mas não conseguimos desviar o pensamento, é porque nos faz pensar. Chris Anderson não é Chris Anderson à toa; se ele está onde está é porque é bom, e sendo bom, tem a obrigação de apontar o que é verdade na internet – e não falar apenas sobre a Rede ‘fácil’ que os ‘deslumbradinhos da web’ tanto amam.

Neste momento, coloco Anderson nas costas e faço coro: a Rede, amigos, por ser feita de pessoas e para pessoas, é confusa e imprevisível. Hoje, existem duas ferramentas universais para o exercício da democracia: o voto e a web. Há pouco mais de duas décadas, só tínhamos o voto, e dessa forma estávamos há milênios.

Por isso, não dá para, a cada nova ferramenta, movimento e ambiente que surge na web, tentar enquadrá-los e dominá-los, criando da noite para o dia seminários, workshops e livros sobre o que surgiu ontem. Se o mercado quer entender a internet e dela tirar conclusões, que se mude para a Rede, mas saiba de antemão que há o sério risco de sair de lá com as mãos abanando.

É possível lucrar com a web, mas é bom entender que se tomará uma rasteira a cada esquina. Se a Amazon.com acabou escorregando na casca de banana por apagar, sem autorização, arquivos de livros de George Orwell de Kindles de milhares de leitores dos Estados Unidos (questão de direitos autorais), por que não os outros? Lidar com comércio na web é como tentar adivinhar o que há após a virada de esquina. Se não há como adivinhar, então entendam que o chão se move o tempo todo.

Há mais de dez anos vivo nessa areia movediça, tentando compreender o que vejo na web. Às vezes, passam-se meses antes de eu estar pronto para escrever algo consistente sobre um assunto. Em meus cursos, faço apostas sobre os rumos da web na frente dos alunos, mas evito a futurologia. Quando escrevo um livro – como neste momento –, faço das tripas coração para falar apenas do que é sólido, e mesmo assim o chão me traga de vez em quando.

Chris Anderson e tantos outros, em maior ou menor escala – e me incluo nesse grupo –, tentam fazer o que chamo de ‘internet do bem’, ou seja, (re)lembrar a todos que a web é feita para duas coisas: 1) encurtar distâncias e 2) aproximar pessoas. Todo o resto vem daí. Se esse for o nosso norte, há uma boa possibilidade de acertarmos o que se esconde na próxima esquina.

Às vezes, fazer ‘internet do bem’ incomoda, perturba, irrita até. Ah, sim, e nos deslumbra de vez em quando. Não por acaso, é idêntico a quando nos relacionamos com qualquer pessoa, seja parente, amigo ou colega de trabalho. Fascinante e perturbador ao mesmo tempo.

Hum… acho que vou deixar Chris Anderson em paz – pelo menos por enquanto.