— Entrevistas —

segunda-feira, 16 de novembro de 2009 por Bruno Rodrigues

Duas boas entrevistas que dei nos últimos dias eu transcrevo aqui – ambas  ótimas, com perguntas bem inteligentes e que respondi com prazer!

BLOG DA EMPRESA DE CONTEÚDO ‘VOGG’, DO RIO DE JANEIRO

Bruno Rodrigues e o “conteúdo totalflex”

A tecnologia e as novas formas de consumo de conteúdo que ela possibilita exercem uma influência incontestável sobre a atuação dos profissionais de Comunicação. Nossa atividade não é mais regida pela lógica do jornalismo tradicional de redação. E hoje, além dos usuários ativos que produzem muito conteúdo e saem distribuindo através de diversas plataformas, nós, comunicadores por formação, estamos disputando mercado com profissionais de outras áreas.

E para comentar sobre esse assunto que deixa muita gente por aí de cabelo em pé, conversamos com o prestigiado Bruno Rodrigues, Consultor de Informação e Comunicação Digital e autor de Webwriting – Redação & Informação para a Web, cuja nova edição está prevista para sair em breve. Em um papo rápido, Bruno coloca sua opinião sobre como se deve produzir conteúdo atualmente e apresenta suas expectativas para o futuro da Comunicação na Era Digital.

Bruno_Rodrigues[1] Como as novas formas de consumo de conteúdo influenciam na maneira de produzir?
Hoje, pensar e produzir conteúdo é criar materiais que não criem amarras com uma mídia específica, mas que ao mesmo tempo seja possível trabalhá-los em várias plataformas. É o que chamo de ‘conteúdo totalflex’. Nunca, no processo de criação de conteúdo, houve tanta necessidade de aliar imaginação e conhecimento às limitações e possibilidades tecnológicas. É uma tarefa que, obviamente, não é para qualquer um.

Com base nas mudanças na distribuição e produção de conteúdo, quais as suas expectativas para a Comunicação e para a atuação dos profissionais da área?
Os profissionais desta área estão próximos da desvantagem. Como este mercado supervaloriza a prática, o conhecimento é visto como necessidade secundária. Por isso, profissionais de outras áreas e que se fiam mais pelo que aprendem na Academia, como bibliotecários, analistas de sistemas e engenheiros, estão preenchendo vagas que poderiam ser de jornalistas e publicitários. Mas o jogo nem está na metade – ainda dá tempo para virar o placar.

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BLOG ‘PUBLIMINAS’ (PUBLICIDADE MINEIRA)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Entrevista com Bruno Rodrigues, pioneiro em webwriting no Brasil

João Marcelo (@jonesmeira), redator web da Solution e colaborador do blog, entrevistou Bruno Rodrigues, pioneiro em webwriting no Brasil, um dos maiores especialistas em informação para a mídia digital da América Latina, e o terceiro a escrever um livro sobre o assunto no mundo (Webwriting – Redação e informação para a Web). O começo de tudo, redes sociais, novas tecnologias e até uma cutucada no escritor português, José Saramago. Confira:

1 – De onde nasceu seu interesse pela internet e pelo webwriting, em tempos onde os dois ainda engatinhavam?

Sempre fui muito ligado à tecnologia e comunicação, mas em meados dos anos 80, quando fiz vestibular, não havia como mesclar estas duas atividades e transformá-las em uma profissão. O microcomputador tinha acabado de ser criado, e a web só nasceria no final daquela década. Meu teste vocacional apontou informática e jornalismo, e cheguei a pensar: ‘o que vou fazer, escrever manuais para computadores?’. A bem da verdade, era só uma questão de tempo, meu grande aliado.

Quando me conectei à internet pela primeira vez, em 1995, pensei: ‘como profissional de comunicação, como posso atuar nesta área?’. E, é claro, foquei em redação. Na época, participava de duas listas de discussão sobre web e começaram a abordar o assunto ‘texto na internet’. Ninguém ali, óbvio, tinha experiência, mas todos estavam começando a tentar trabalhos na área – eu era um deles. Como havia conseguido trabalho como freelancer em assessoria de imprensa para um provedor de acesso, um dos sócios da empresa me ofereceu a oportunidade de escrever textos para os sites dos clientes. Como já havia reunido material razoável sobre o assunto, aceitei o desafio – foi assim que comecei.

2 – Algumas pessoas pensam que o webwriting apenas cria textos para a web. Quais as principais funções desse profissional?

Lidar com os vários formatos da informação no ambiente digital: foto, ícone, vídeo, tabela, áudio, gráfico e, é claro, texto. O bom webwriter, por mais que receba uma informação em formato texto, deve raciocinar: ’será que, nesta camada do site, é em texto a melhor forma de tratar a informação?’. Às vezes sim – em camadas mais superficiais -, às vezes não – em camadas de detalhamento. Além disso, é preciso entender que a ‘persona’ redator do webwriter só deve atuar quando necessário. Costumo dizer que, na verdade, quando o webwriter lida com texto, ele é ‘gestor da informação digital’, e não redator. O redator é amante da frase, o gestor da informação digital é amante da palavra, que é a chave para tudo, hoje em dia, na internet. A palavra é sinalizador, ponte, definição, auxílio – mas passa bem longe da função de expressão, que é o que uma frase procura.

3 – Com as novas tecnologias, as milhões de possibilidades que nascem todos os dias na rede, como fica a formação e a qualificação do webwriting?

O webwriter é o profissional que lida com a informação no meio digital, e ponto. Atrelar esta função ao jornalista, à beira da segunda década do século XXI, é uma visão muito limitada da atividade e das oportunidades de mercado. Existe uma quantidade enorme de profissionais de Letras e Biblioteconomia atuando na área no mundo inteiro, por exemplo. Claro que o profissional que lida com texto supera outro que não tenha intimidade com a escrita, mas é apenas o ponto zero para a qualificação de um profissional. A verdade é que temos, atualmente, até engenheiros e analistas de sistemas que se destacam na área. Esta mistura de conhecimentos é fascinante – e eficaz, não duvide.

4 – Qual a sua opinião sobre o conteúdo – profissional ou amador – gerado na/para web, e a forma como as pessoas estão consumindo informação na rede?

Muito do que se produz na web é lixo, mas sabemos que existe muito material elaborado diariamente em blogs que possui um nível excepcional, por exemplo. Já sabemos distinguir o joio do trigo, e não vejo isso mais como algo crítico para a credibilidade da web, como acontecia há alguns anos.

O consumo de informação na Rede é algo bastante complexo. Informações absorvidas de uma página web competem com outros aplicativos abertos no computador, como comunicadores instantâneos, processadores de textos e planilhas, só para dar um exemplo. Além disso, raramente navegamos com apenas uma página aberta, revezamos entre outros sites e páginas de redes sociais, como facebook e twitter. É uma competição ferrenha entre o que chamará, de fato, a nossa atenção. A multitarefa é muito bonita na teoria, mas péssima como estímulo para o acesso a informações mais aprofundadas. O que fazemos é ficar na superfície dos sites. O ‘tesouro’ da informação, que fica em camadas subsequentes e que nos ajudará a criar conhecimento, luta para ser vista. Estudos mostram que é provável que nem a geração millemi um – que está chegando à adolescência – saberá lidar com a multitarefa e ao mesmo tempo perceber que o conhecimento não está nas primeiras camadas dos sites, e sim adiante. E é missão do webwriter e do arquiteto da informação trabalhar para isso, não é obrigação de usuário algum saber o que está perdendo.

5 – Os primeiros Kindles – leitor de publicações eletrônico da Amazon – estão chegando ao Brasil. Você acha que os jornais impressos irão acabar? Em um futuro próximo, essa pode ser uma preocupação para as editoras de livros?

Vão acabar, sim, mas não agora, nem nas próximas décadas. É notório que ainda existe uma resistência cultural de séculos para aceitar que informação digital tem a mesma validade que informação em papel. A impressão é se tem é que a informação digital se esvai no ar, para muitos é difícil aceitar que ela estará, cada vez mais, disponível em rede, acessível de qualquer lugar, a qualquer hora, sem estar acorrentada a maços de papel como livros e jornais. É como se a informação precisasse estar impressa para existir – por isso as próximas gerações ainda lerão jornais em papel e livros impressos, até virar exceção. Nada será tão radical como muitos gostariam, nem lento como alguns têm esperança. O Kindle, o Sony Reader e o Nook são os abre-alas desta era, assim como de jornais de ponta c omo El País e The New York Times e suas versões digitais.

As editoras estão fora da zona de perigo pela qual as gravadoras passaram e de onde saíram gravemente feridas. Hoje, o ponto questão é: a venda de ebooks, bem mais baratos que os de papel, poderia se sustentar como centro de um modelo de negócios? Quanto tempo demoraria para esta fase de experimentação converter-se em lucro real e constante para uma editora? Já se sabe que a voracidade da pirataria em livros digitais é infinitamente menor do que acontece com a música, mas esta seria uma fase passageira? Um grupo de rock pode sobreviver à base de shows e ignorar a troca de músicas via Rede, mas e um escritor, o que ele iria fazer para sobreviver? São questões que precisam ser resolvidas o quanto antes.

Para atrair os leitores para os ebooks, surgem novas tecnologias como os ‘vooks’, livros em que música e vídeos são inseridos em meio aos capítulos, sempre no contexto da narrativa, e com o propósito de ressaltar aspectos da história e dar mais vida a cenários, personagens ou passagens da trama. Vale a pena checar em www.vook.com.

6 – E as redes sociais? Acredita que as empresas estão caminhando para um uso consciente delas ou ainda falta muito? Pode citar exemplos?

Sim, vejo o ano que vem como definitivo para a sedimentação deste mercado. Contudo, é preciso acabar com um ruído neste mercado: a proliferação de ‘experts’ em redes sociais. Um expert é aquele que tem experiência o bastante em uma área para se intitular com tal, e estamos falando em um mercado (mídias sociais) muito novo, de cinco, seis anos. Conheço poucos profissionais que, em tão pouco tempo, já merecem este título. A multiplicação de ‘expert instantâneos’ é prejudicial ao mercado, porque eles acabam por criar estratégias equivocadas para os clientes, e os resultados desastrosos mancham a imagem dos verdadeiros especialistas. Profissionais como Cláudio Torres, Nino Carvalho, Roberto Cassano e Juliano Spyer não merecem isso.

Poderia dar exemplo de grandes empresas e cases famosos em mídias sociais, mas prefiro citar o trabalho de ‘formiguinha’ que editoras brasileiras como Intrínseca e Ediouro estão realizando com seus leitores. A Intrínseca, em especial, tem sido feliz em agir de maneira certa e contar de imediato com o apoio e o trabalho espontâneo de seu público. É bonito de se ver.

7 – Sobre o Twitter, José Saramago disse: “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”. O que você acha dessa afirmação do escritor português?

Péssima. As gerações que estão à frente das nossas têm obrigação de facilitar o acesso ao futuro, e não embotá-lo. José Saramago deveria estimular o uso de novas tecnologias que facilitam a produção de literatura em novas plataformas, e não cobri-las de preconceito. Se procurasse conhecer mais o twitter, saberia que a limitação de 140 caracteres é uma questão de estilo, assim como acontece com a produção de textos para qualquer outra mídia. Caso eu encarasse escrita da mesma forma que ele critica os ‘grunhidos’ do twitter, poderia tê-lo taxado de ‘verborrágico’, já que ele tem costume de não usar pontuação em suas obras.

8 – Para fechar, dê algumas dicas para os profissionais que têm interesse pelo webwriting ou estão começando na área.

O principal é entender que webwriting é mais uma ferramenta dentro do universo do trabalho da informação digital. E, por isso, aprender a lidar com arquitetura da informação, otimização de sistemas de busca, direito digital, acessibilidade e tantos outros assuntos. Mas o principal é perceber que o mercado de trabalho não está nas redações de jornais, mas em áreas como sites de comércio eletrônico e intranets de empresas, por exemplo – aí estão os bons salários.

Um comentário

  1. Rodrigo dMart disse:

    Olá, caríssimo Bruno Rodrigues.

    Sou músico, jornalista (TVE) e escritor (HQ). Moro em Porto Alegre.

    Comprei o teu livro há quase 10 anos quando trabalhava conteúdo para a criação de um portal. Na época, fiquei espantado em saber que havia uma expressão que designasse “aquele que trabalha o texto para a internet”.

    Bueno, emprestei um livro para um amigo e ele, por engano, jogou fora o livro (pelo título, em inglês, ele acho que fosse algo de endomarketing ou algo parecido). ; )

    Entonces, quando será publicada a terceira edição de “Webwriting”? Gostaria de ser informado do relançamento do livro.

    Muchas gracias pela atenção.

    Baita abraço, dMart.

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