Cinco ótimas entrevistas que fizeram comigo ao longo de 2009 e 2010: a primeira em vídeo para o iMasters – feita pela amiga Ana Erthal -, a segunda para a revista especial de 25 anos do grupo ‘Folha Dirigida’ – aqui, na íntegra -, e as três últimas para os blogs ‘Mídiaboom’, ‘Vogg’ e ‘Publiminas’.
Além disso, publico aqui dois textos que me deram muito prazer em produzir e que saíram na ‘Webinsider’ e na ‘Wide’ (ex-‘Webdesign’): ‘O que aprendi em 15 anos‘ e ‘O retorno da palavra‘.
E vamos em frente que agora vem meu terceiro livro por aí!
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[[[ iMasters ]]]
Cartilha de Redação Web: uma enorme contribuição para a criação de um padrão nacional de redação
Por Ana Erthal
Desde 2001, o governo brasileiro vem fazendo esforços para criar padrões para a internet, numa tentativa de aproximar e estabelecer uma comunicação mais direta com a população.
Este ano foi lançada a Cartilha de Redação Web, um passo de suma importância para os Padrões Brasil e-Gov, que faz com que o nosso país esteja numa lista curtíssima de países que tiveram a mesma iniciativa: Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Canadá.
O responsável pela criação e desenvolvimento da Cartilha de Redação Web foi o pioneiro em webwriting no Brasil, o professor Bruno Rodrigues, autor de livros e centenas de artigos sobre conteúdo online. “Tudo foi pensado a partir de boas práticas do mercado, passou pela revisão minuciosa do governo e ainda esteve durante um mês em consultoria pública, para que todo cidadão pudesse contribuir”.
Nesta entrevista concedida ao iMasters, e feita por mim, Bruno conta todos os detalhes desse importante passo para o conteúdo digital.
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[[[ Folha Dirigida – 25 Anos ]]]
Como as diversas ferramentas existentes na internet podem ajudar na interação entre empresa e consumidor?
Aproximando as marcas de seu público – mas é preciso que as empresas estejam preparadas para interagir com seus consumidores nas mídias sociais. Uma pergunta feita no Twitter que fica sem resposta não só prejudica a imagem de uma corporação, como funciona como viral em sentido oposto: em questão de minutos o ’silêncio’ de uma empresa se transforma em um fato negativo que irá se espalhar pelas mídias sociais (até porque elas estão cada vez mais integradas). Além disso, é sempre bom lembrar que tudo o que há na web é ferramenta de relacionamento, começando pelo site institucional da empresa; é bom não esquecer dele!
No caso de empresas de comunicação que possuem jornal impresso e internet, como a Folha Dirigida, o conteúdo da internet deve se limitar ao que é divulgado no site, com algumas exceções? Ou deve ser bem diferente e muito mais amplo?
Há bastante tempo que é regra um veículo de comunicação online oferecer na web bem mais do que está disponível em papel, mas desde o ano passado – 2009 foi um ano fundamental para a história do Jornalismo – que a questão ficou mais complexa: é fato consumado que é preciso lucrar com o trabalho que há para elaborar conteúdo exclusivo. Passou o momento da novidade, em que a estratégia era chamar atenção para os sites noticiosos. Que modelo de negócios irá resolver este ‘livre consumo’ de informação? Cada veículo cobraria por seu conteúdo, ou apenas parte dele? Neste aspecto, 2011 será um ano fundamental, a começar pelo exemplo do ‘The New York Times’, que iniciará a cobrança de seu conteúdo. É preciso observar o comportamento do público, que já rejeitou este modelo em meados da última década, e os veículos online recuaram. É um equilíbrio difícil, em que a intenção e o desejo financeiro misturam-se com a possibilidade de rejeição e, sempre, o imprevisto.
Foruns e Chats também são ferramentas de comunicação entre os consumidores e entre empresa e consumidor. Mesmo com as novas ferramentas, ainda há espaço para estes itens na internet?
Chats, sim; fóruns, depende. Os chats começam a se transformar em regra em sites de serviço e produtos. O consumidor quer soluções no exato momento em que os problemas surgem. E não deveria ser assim? Se há ferramentas para isso, por que não? Quanto a fóruns, é preciso que exista permanentemente nestes ambientes alguém que vá transformando ideias, opiniões e informações em conhecimento para a empresa. Este gestor da informação e do conhecimento deve elaborar relatórios constantes a partir do que é discutido pelos participantes, e aí o ganho é enorme para as empresas. Mas se os fóruns existem com o raciocínio de ‘playgrounds’ abandonados, onde ninguém ouve o que é dito e nada é aproveitado, então esqueça.
Na Folha Dirigida, realizamos salas de Chat entre professor e assinantes para resolução de dúvidas sobre concursos. No site da Dell, o Chat é utilizado para dúvidas e aquisição de produtos. Como tem sido a utilização de Chat na internet atualmente? Os exemplos citados anteriormente são poucos perto da infinidade da internet?
Em ambientes de aprendizagem a distância, seja ele qual for, o chat é uma ferramenta essencial, não se trabalha sem – isso não só para quem aprende, mas também para quem ensina. O chat foi um pouco esquecido no período 2003/2008, em que houve o ‘boom’ das mídias sociais, era como se esta ferramenta estivesse ultrapassada. Mas, é claro, percebeu-se depois que todas as ferramentas de relacionamento web se complementam, todas são úteis, e o poder de fogo da cada uma delas aumenta exponencialmente se você as utiliza em conjunto. Muitas empresas já usam o chat como ferramenta permanente de atendimento, e já vejo sua utilização como regra.
Como deve ser o investimento das empresas com relação a melhorias e ampliação de serviços?
É preciso olhar com cuidado para o que é oferecido na web. Nem toda ferramenta, recurso ou ambiente que surge pode ser abraçado imediatamente como solução – muitas são, mas nem sempre a solução vem apenas com sua utilização. Estamos em um momento em que o mercado ja está bem mais maduro do que há cinco, seis anos. Quando uma novidade em relacionamento online surge na mídia ou é adotada pelos fornecedores, é porque já foi dissecada e seus resultados cuidadosamente estudados. Em suma, fique de olhos abertos, não veja nada com desdém ou preconceito, mas abrace as novas ideias com cuidado.
Comente sobre o crescimento da internet para as empresas, principalmente com relação às diversas possibilidades de serviços:
A aproximação dos públicos com as marcas e empresas nos traz algo inédito, fantástico. É possível ouvir em questões de minutos ou poucas horas o que o consumidor acha de um produto ou serviço. E quem está disposto a vivenciar esta troca irá se tornar uma empresa de ponta nos próximos anos, tenha certeza. Muitos já fizeram isso e estão colhendo frutos. A atitude de ouvir, mudar, transformar e retornar para o consumidor esta ‘mudança de pele’ é o que há de mais fantástico ao utilizar a web para criar laços e testar uma marca. Mas é preciso coragem, sem dúvida!
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[[[ Midiaboom ]]]
Entrevista com Bruno Rodrigues – O Fazer do Webwriting
Vale a pena conferir o que tem a dizer uma das principais personalidades do webwriting no Brasil. Bruno Rodrigues foi contratado pelo Governo para desenvolver a “Cartilha de Redação Web”, um “padrão” para a escrita na web brasileira, disponível gratuitamente desde junho passado. Seu pioneirismo no assunto também se mostrou ao lançar, em 2000, o primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo on-line, “Webwriting – Pensando o texto para mídia digital”, e, em 2006, uma continuação, “Webwriting – Redação & Informação para a web”, ambos com edições esgotadas. Eventualmente, atualiza seu site/blog, mais regularmente, escreve a coluna “Webwriting” para o Webinsider, e mais frequentemente, interage pelo seu Twitter. Entre outras atividades, também ministra treinamentos in-company e cursos presenciais e a distancia, sempre relacionados ao que mais conhece, webwriting e arquitetura da informação.
1) Quais as principais diferenças entre o fazer do webwriting de quando você iniciou – em 1995 – e o atual?
Naquela época o foco era apenas o estudo do comportamento do *texto* na mídia digital, em especial desde que Jakob Nielsen, ícone da Usabilidade, publicou o resultado de sua pesquisa sobre o assunto, em março de 1997. Desde então, o webwriting ampliou muito seu campo de ação. O que importa, hoje, é comportamento de todos os elementos da informação na mídia digital: fotografia, ícone, vídeo, infográfico, áudio – e também o texto, que é visto como mais um entre os vários elementos da informação. É ainda o principal, mas é visto como mais um.
2) O que é urgente melhorar na comunicação on-line atual, especialmente no que tange ao webwriting e ao leitor cada vez mais fugaz? Por que desenvolver um “padrão”, criando, assim, a “Cartilha”?
Abrir espaço para a expressão do cidadão é urgente, e muitos órgãos do Governo já têm criado boas experiências com ótimo resultado, e é apenas o início. O trabalho em mídias sociais não é uma área estranha à esfera governamental, tenha certeza – em breve teremos bons cases de sucesso.
Sobre desenvolver um padrão em webwriting é uma iniciativa louvável do Governo Eletrônico (e-Gov). O objetivo é melhorar a comunicação digital do país com os cidadãos. Somos pioneiros: apenas Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia desenvolveram iniciativas contínuas e consistentes neste sentido, e a ‘Cartilha de Redação Web’, o padrão brasileiro de redação para a web, foi o primeiro passo na criação de um conjunto de padrões, do qual já faz parte, inclusive, a Cartilha de Usabilidade.
A ‘Cartilha de Redação Web’, assim como as outras, contém um conjunto de boas práticas, não são regras. É como o ‘sumo’ de anos de boas experiências comprovadas na área.
Assim, o Governo Federal não quer impor nada, pelo contrário. O que se quis, desde o início, foi que as recomendações fossem adotadas espontaneamente, e para isso era preciso que a ‘Cartilha de Redação Web’ fosse reconhecida como um bom trabalho para se tornar um padrão, de fato.
Felizmente isso tem acontecido de forma surpreendente desde o lançamento, no início do mês passado.
3) Como surgiu o convite para a produção da “Cartilha de Redação Web”? Houve concorrência? Em resumo, como foi o processo, desde escolha do autor – você – e equipe envolvida, passando pela elaboração e preparação, até a versal final?
A equipe do e-Gov pesquisou muito sobre meu trabalho antes de iniciar todo o processo de contratação. O fato de meu trabalho ser pioneiro no Brasil, de eu ser citado no verbete ‘webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, de ter prestado consultaria e treinados equipes em quase quarenta empresas e instituições – muitas governamentais – ao longo de uma década e ter escrito dois livros reconhecidos pela área acadêmica, tudo isso pesou muito nesta escolha. Pude constatar claramente que, no momento de ser escolhido para um trabalho de extrema relevância como esse, ter um blog especializado ou uma coluna na web ainda é muito, muito pouco. Mais que um reconhecimento, foi um alerta que serve para todo o mercado.
Fui contratado por ‘notório saber’, processo que demorou quase nove meses para ser concluído. Primeiro, a equipe precisou comprovar que esta categoria de contratação realmente se aplicava ao meu caso, o que demandou algum tempo. Depois, foi a minha vez, ou seja, precisei reunir toda minha produção impressa e digital na área em quinze anos, de livros a manuais, de cartilhas a colunas em revistas, e enviar tudo para Brasília. Além disso, foram solicitadas cartas de comprovação de vários clientes para os quais prestei serviços.
Desde meu primeiro contato com o Governo Eletrônico, em dezembro de 2008, até o evento de lançamento da ‘Cartilha de Redação Web’ em Brasília, há duas semanas, para 400 profissionais do Poder Executivo, passou-se um ano e oito meses. Foi um longo caminho.
Quanto ao processo de elaboração da ‘Cartilha’, ele foi trabalhoso, e tive a imensa preocupação de peneirar toda e qualquer dica que não tivesse sido testada ou comprovada ao longo de vinte anos de existência da web e uma década de relação online governo/cidadão.
Para começar, qualquer tentativa de ensinar a escrever ‘diferente’ para a web foi limada, assim como esclareci muito bem qualquer associação imediata entre webwriting e jornalismo online, já que a maioria das informações dos sites governamentais não é noticiosa, e sim institucional ou sobre serviços.
Depois, pesquisei mais de 700 sites em português, inglês, espanhol e francês ao longo de dois meses para dissecar cada detalhe do que já foi feito lá fora, do bom ao ruim. E, é claro, fiz uma radiografia profunda de cada um dos sites governamentais da esfera pública federal brasileira. Aí, para costurar toda esta pesquisa, coloquei para trabalhar meu olhar, minha experiência.
Perdi a conta de quantas vezes revisei o material, de quantas vezes o texto foi e voltou do e-Gov, de quantos itens foram incluídos e retirados da ‘Cartilha’, inclusive por conta do período de consulta pública, em que qualquer brasileiro podia dar sugestões e criticar. Mas quem dava o tom era eu, todo o tempo, e essa liberdade foi fundamental.
4) Quais as maiores oportunidades surgidas por meio da “Cartilha” – que já foi enorme – e qual o peso e responsabilidade de ser o principal responsável pela sua confecção?
Oportunidades têm surgido, sim, mas o que ficou foi o orgulho. Impossível, em um momento como o de Brasília, frente a frente com centenas de pessoas que foram conhecer o trabalho final, você não ter a consciência de fez algo de importante para o país, de se sentir 100% brasileiro. Quando, ao final da primeira manhã (foram dois dias), saí do auditório, estava muito orgulhoso. Só me lembrava de uma frase twittada há algumas semanas pelo Fábio Moon, jovem cartunista brasileiro com muitos trabalhos de destaque no exterior e que há um mês voltou de uma participação no London Literature Festival: “Agora, é preciso celebrar as conquistas. Em voz alta, com o orgulho de quem sabe o trabalho que dá viver essa vida com intensidade”.
5) Com uma demanda para produção de conteúdo – com qualidade – na comunicação on-line, a cada dia mais crescente, em vários setores, por que seus livros não têm tiragem regular, enquanto borbulham lançamentos de livros ligados à web e comunicação, especialmente a digital?
Webwriting ainda é um pequeno nicho dentro de Comunicação Digital. Mas meu terceiro livro, a ser lançado no início de 2011 (seria no final deste ano, mas tive que adiar por conta da ‘Cartilha’), terá tiragem maior.
6) Quais suas principais recomendações didáticas para as pessoas que estão começando ou que pretendem começar a produzir conteúdo profissionalmente, principalmente para a web?
Entendam que texto é algo secundário no primeiro contato de um usuário em um site – e por isso temos que trabalhá-lo, antes de tudo, como um elemento visual na página, uma ‘marca visual’. Só depois o usuário irá prestar atenção ao que está escrito. É impactante, mas é assim que as coisas funcionam.
7) Como você vê a relação das empresas (conteúdo em sites e blogs corporativos, institucionais e profissionais) com as mídias sociais – especialmente Twitter – e com posicionamento nos buscadores (SEO)? Os profissionais e as empresas dão a devida atenção à produção de conteúdo, e ainda, quanto à redação para os buscadores em contrapartida ao fator humano?
Cada vez mais as empresas se preocupam com SEO, por exemplo, mas há muita informação descartável sendo produzida nesta área, e muitos especialistas surgem da noite por dia – já que é um conhecimento disponível na própria web, ao alcance de qualquer um. Torna-se expert instantâneo quem tem mais tempo para pesquisar o assunto, o que não necessariamente é sinônimo de qualidade ou benéfico para o mercado. Empresas como ‘Mestre SEO’ e profissionais como Paulo Rodrigo Teixeira fazem a diferença.
A grosso modo, o que diferencia a redação para a web dos demais tipos de escrita e redação? Com uma leitura digital naturalmente fugaz e com o crescimento do mercado de e-books e e-readers, quais as mudanças e perspectivas para o webwriting?
Na escrita para a web, há maior relação entre texto e as características tecnológicas da mídia. Além disso, o design tem uma grande influência na absorção do conteúdo.
Para o futuro próximo, eu vejo ações de webwriting em transmídia, ebooks de terceira geração e (sempre) mobile.
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[[[ Vogg ]]]
BLOG DA EMPRESA DE CONTEÚDO ‘VOGG’, DO RIO DE JANEIRO
A tecnologia e as novas formas de consumo de conteúdo que ela possibilita exercem uma influência incontestável sobre a atuação dos profissionais de Comunicação. Nossa atividade não é mais regida pela lógica do jornalismo tradicional de redação. E hoje, além dos usuários ativos que produzem muito conteúdo e saem distribuindo através de diversas plataformas, nós, comunicadores por formação, estamos disputando mercado com profissionais de outras áreas.
E para comentar sobre esse assunto que deixa muita gente por aí de cabelo em pé, conversamos com o prestigiado Bruno Rodrigues, Consultor de Informação e Comunicação Digital e autor de Webwriting – Redação & Informação para a Web, cuja nova edição está prevista para sair em breve. Em um papo rápido, Bruno coloca sua opinião sobre como se deve produzir conteúdo atualmente e apresenta suas expectativas para o futuro da Comunicação na Era Digital.
Como as novas formas de consumo de conteúdo influenciam na maneira de produzir?
Hoje, pensar e produzir conteúdo é criar materiais que não criem amarras com uma mídia específica, mas que ao mesmo tempo seja possível trabalhá-los em várias plataformas. É o que chamo de ‘conteúdo totalflex’. Nunca, no processo de criação de conteúdo, houve tanta necessidade de aliar imaginação e conhecimento às limitações e possibilidades tecnológicas. É uma tarefa que, obviamente, não é para qualquer um.
Com base nas mudanças na distribuição e produção de conteúdo, quais as suas expectativas para a Comunicação e para a atuação dos profissionais da área?
Os profissionais desta área estão próximos da desvantagem. Como este mercado supervaloriza a prática, o conhecimento é visto como necessidade secundária. Por isso, profissionais de outras áreas e que se fiam mais pelo que aprendem na Academia, como bibliotecários, analistas de sistemas e engenheiros, estão preenchendo vagas que poderiam ser de jornalistas e publicitários. Mas o jogo nem está na metade – ainda dá tempo para virar o placar.
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[[[ Publiminas ]]]
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
João Marcelo (@jonesmeira), redator web da Solution e colaborador do blog, entrevistou Bruno Rodrigues, pioneiro em webwriting no Brasil, um dos maiores especialistas em informação para a mídia digital da América Latina, e o terceiro a escrever um livro sobre o assunto no mundo (Webwriting – Redação e informação para a Web). O começo de tudo, redes sociais, novas tecnologias e até uma cutucada no escritor português, José Saramago. Confira:
1 – De onde nasceu seu interesse pela internet e pelo webwriting, em tempos onde os dois ainda engatinhavam?
Sempre fui muito ligado à tecnologia e comunicação, mas em meados dos anos 80, quando fiz vestibular, não havia como mesclar estas duas atividades e transformá-las em uma profissão. O microcomputador tinha acabado de ser criado, e a web só nasceria no final daquela década. Meu teste vocacional apontou informática e jornalismo, e cheguei a pensar: ‘o que vou fazer, escrever manuais para computadores?’. A bem da verdade, era só uma questão de tempo, meu grande aliado.
Quando me conectei à internet pela primeira vez, em 1995, pensei: ‘como profissional de comunicação, como posso atuar nesta área?’. E, é claro, foquei em redação. Na época, participava de duas listas de discussão sobre web e começaram a abordar o assunto ‘texto na internet’. Ninguém ali, óbvio, tinha experiência, mas todos estavam começando a tentar trabalhos na área – eu era um deles. Como havia conseguido trabalho como freelancer em assessoria de imprensa para um provedor de acesso, um dos sócios da empresa me ofereceu a oportunidade de escrever textos para os sites dos clientes. Como já havia reunido material razoável sobre o assunto, aceitei o desafio – foi assim que comecei.
2 – Algumas pessoas pensam que o webwriting apenas cria textos para a web. Quais as principais funções desse profissional?
Lidar com os vários formatos da informação no ambiente digital: foto, ícone, vídeo, tabela, áudio, gráfico e, é claro, texto. O bom webwriter, por mais que receba uma informação em formato texto, deve raciocinar: ’será que, nesta camada do site, é em texto a melhor forma de tratar a informação?’. Às vezes sim – em camadas mais superficiais -, às vezes não – em camadas de detalhamento. Além disso, é preciso entender que a ‘persona’ redator do webwriter só deve atuar quando necessário. Costumo dizer que, na verdade, quando o webwriter lida com texto, ele é ‘gestor da informação digital’, e não redator. O redator é amante da frase, o gestor da informação digital é amante da palavra, que é a chave para tudo, hoje em dia, na internet. A palavra é sinalizador, ponte, definição, auxílio – mas passa bem longe da função de expressão, que é o que uma frase procura.
3 – Com as novas tecnologias, as milhões de possibilidades que nascem todos os dias na rede, como fica a formação e a qualificação do webwriting?
O webwriter é o profissional que lida com a informação no meio digital, e ponto. Atrelar esta função ao jornalista, à beira da segunda década do século XXI, é uma visão muito limitada da atividade e das oportunidades de mercado. Existe uma quantidade enorme de profissionais de Letras e Biblioteconomia atuando na área no mundo inteiro, por exemplo. Claro que o profissional que lida com texto supera outro que não tenha intimidade com a escrita, mas é apenas o ponto zero para a qualificação de um profissional. A verdade é que temos, atualmente, até engenheiros e analistas de sistemas que se destacam na área. Esta mistura de conhecimentos é fascinante – e eficaz, não duvide.
4 – Qual a sua opinião sobre o conteúdo – profissional ou amador – gerado na/para web, e a forma como as pessoas estão consumindo informação na rede?
Muito do que se produz na web é lixo, mas sabemos que existe muito material elaborado diariamente em blogs que possui um nível excepcional, por exemplo. Já sabemos distinguir o joio do trigo, e não vejo isso mais como algo crítico para a credibilidade da web, como acontecia há alguns anos.
O consumo de informação na Rede é algo bastante complexo. Informações absorvidas de uma página web competem com outros aplicativos abertos no computador, como comunicadores instantâneos, processadores de textos e planilhas, só para dar um exemplo. Além disso, raramente navegamos com apenas uma página aberta, revezamos entre outros sites e páginas de redes sociais, como facebook e twitter. É uma competição ferrenha entre o que chamará, de fato, a nossa atenção. A multitarefa é muito bonita na teoria, mas péssima como estímulo para o acesso a informações mais aprofundadas. O que fazemos é ficar na superfície dos sites. O ‘tesouro’ da informação, que fica em camadas subsequentes e que nos ajudará a criar conhecimento, luta para ser vista. Estudos mostram que é provável que nem a geração millemi um – que está chegando à adolescência – saberá lidar com a multitarefa e ao mesmo tempo perceber que o conhecimento não está nas primeiras camadas dos sites, e sim adiante. E é missão do webwriter e do arquiteto da informação trabalhar para isso, não é obrigação de usuário algum saber o que está perdendo.
5 – Os primeiros Kindles – leitor de publicações eletrônico da Amazon – estão chegando ao Brasil. Você acha que os jornais impressos irão acabar? Em um futuro próximo, essa pode ser uma preocupação para as editoras de livros?
Vão acabar, sim, mas não agora, nem nas próximas décadas. É notório que ainda existe uma resistência cultural de séculos para aceitar que informação digital tem a mesma validade que informação em papel. A impressão é se tem é que a informação digital se esvai no ar, para muitos é difícil aceitar que ela estará, cada vez mais, disponível em rede, acessível de qualquer lugar, a qualquer hora, sem estar acorrentada a maços de papel como livros e jornais. É como se a informação precisasse estar impressa para existir – por isso as próximas gerações ainda lerão jornais em papel e livros impressos, até virar exceção. Nada será tão radical como muitos gostariam, nem lento como alguns têm esperança. O Kindle, o Sony Reader e o Nook são os abre-alas desta era, assim como de jornais de ponta c omo El País e The New York Times e suas versões digitais.
As editoras estão fora da zona de perigo pela qual as gravadoras passaram e de onde saíram gravemente feridas. Hoje, o ponto questão é: a venda de ebooks, bem mais baratos que os de papel, poderia se sustentar como centro de um modelo de negócios? Quanto tempo demoraria para esta fase de experimentação converter-se em lucro real e constante para uma editora? Já se sabe que a voracidade da pirataria em livros digitais é infinitamente menor do que acontece com a música, mas esta seria uma fase passageira? Um grupo de rock pode sobreviver à base de shows e ignorar a troca de músicas via Rede, mas e um escritor, o que ele iria fazer para sobreviver? São questões que precisam ser resolvidas o quanto antes.
Para atrair os leitores para os ebooks, surgem novas tecnologias como os ‘vooks’, livros em que música e vídeos são inseridos em meio aos capítulos, sempre no contexto da narrativa, e com o propósito de ressaltar aspectos da história e dar mais vida a cenários, personagens ou passagens da trama. Vale a pena checar em www.vook.com.
6 – E as redes sociais? Acredita que as empresas estão caminhando para um uso consciente delas ou ainda falta muito? Pode citar exemplos?
Sim, vejo o ano que vem como definitivo para a sedimentação deste mercado. Contudo, é preciso acabar com um ruído neste mercado: a proliferação de ‘experts’ em redes sociais. Um expert é aquele que tem experiência o bastante em uma área para se intitular com tal, e estamos falando em um mercado (mídias sociais) muito novo, de cinco, seis anos. Conheço poucos profissionais que, em tão pouco tempo, já merecem este título. A multiplicação de ‘expert instantâneos’ é prejudicial ao mercado, porque eles acabam por criar estratégias equivocadas para os clientes, e os resultados desastrosos mancham a imagem dos verdadeiros especialistas. Profissionais como Cláudio Torres, Nino Carvalho, Roberto Cassano e Juliano Spyer não merecem isso.
Poderia dar exemplo de grandes empresas e cases famosos em mídias sociais, mas prefiro citar o trabalho de ‘formiguinha’ que editoras brasileiras como Intrínseca e Ediouro estão realizando com seus leitores. A Intrínseca, em especial, tem sido feliz em agir de maneira certa e contar de imediato com o apoio e o trabalho espontâneo de seu público. É bonito de se ver.
7 – Sobre o Twitter, José Saramago disse: “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”. O que você acha dessa afirmação do escritor português?
Péssima. As gerações que estão à frente das nossas têm obrigação de facilitar o acesso ao futuro, e não embotá-lo. José Saramago deveria estimular o uso de novas tecnologias que facilitam a produção de literatura em novas plataformas, e não cobri-las de preconceito. Se procurasse conhecer mais o twitter, saberia que a limitação de 140 caracteres é uma questão de estilo, assim como acontece com a produção de textos para qualquer outra mídia. Caso eu encarasse escrita da mesma forma que ele critica os ‘grunhidos’ do twitter, poderia tê-lo taxado de ‘verborrágico’, já que ele tem costume de não usar pontuação em suas obras.
8 – Para fechar, dê algumas dicas para os profissionais que têm interesse pelo webwriting ou estão começando na área.
O principal é entender que webwriting é mais uma ferramenta dentro do universo do trabalho da informação digital. E, por isso, aprender a lidar com arquitetura da informação, otimização de sistemas de busca, direito digital, acessibilidade e tantos outros assuntos. Mas o principal é perceber que o mercado de trabalho não está nas redações de jornais, mas em áreas como sites de comércio eletrônico e intranets de empresas, por exemplo – aí estão os bons salários.
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O que aprendi em quinze anos
Por Bruno Rodrigues
Para boa parte dos leitores da Webinsider, minha carreira pode parecer estranha e atípica. Vivi refém do mundo offline ao longo de sete anos de vida profissional. O meio online simplesmente não existia. Passei a acontecer, de fato, quando peguei o bonde da Comunicação Digital – e do início, o que foi um privilégio, mas um baita desafio.
Não existe melhor maneira de comemorar do que dividir o que aprendi nestes quinze anos. Listo lições aprendidas que se me são válidas hoje, e é provável que algumas também sejam para você.
Especialize-se
Ser generalista só vale na teoria, na prática você só é procurado quando faz algo diferente. Em Comunicação Digital, há diversas áreas que foram sendo definidas ao longo do tempo: webdesign, webwriting, arquitetura da informação, marketing digital.
Quando uma empresa precisa de alguém, não procura um profissional ‘de Comunicação Digital’, mas um perfil determinado. É diferente do tempo que vivi na virada para os anos 90, quando você dizia que era jornalista ou publicitário e estava feito.
Hoje, o trabalho é mais específico, cada profissional é visto como uma experiência única, eu quero você, não há cópia sua em cada esquina. Fulano é chamado para uma vaga mais pelo que pensa e produz na web do que necessariamente tem de experiência ‘empresarial’, e isso é uma benção. Sempre me apresentei como alguém que lidava como informação online, seja como webwriter ou arquiteto da informação, e consegui ser visto como um profissional diferenciado. Tivesse me apresentado como um canivete suíço estaria andando em círculos até hoje.
Produza
Não é novidade que a web, além de mercado de trabalho, é incubadora de talentos. O que significa que você pode sair do total anonimato e diferenciar-se através da visão do que é feito em sua área de atuação.
Uma multidão de blogueiros está aí para comprovar que, colocando a cara a tapa e o talento à vista, um profissional consegue se destacar. Atenção, contudo: nos últimos tempos, há uma enxurrada de profissionais, em especial os ligados às mídias sociais, que se baseando apenas no que produzem na web, vendem-se como especialistas. É preciso existir um equilíbrio entre o conhecimento adquirido e exposto e o trabalho que se executa no dia-a-dia. Como alguém pode querer se mostrar como um especialista se possui apenas três anos de experiência e vivência em empresas pequenas e médias com clientes idem? Eu, por exemplo, só comecei me apresentar como especialista quando já tinha atendido mais de 20 clientes de grande porte e publicado dois livros. Se não é assim, é propaganda enganosa.
Comprometa-se
Se você abraçou uma atividade determinada dentro de Comunicação Digital, saiba que, automaticamente, você virou porta-voz. O que significa que este mercado ainda depende, e muito, de cada um de nós para evoluir. Vejo profissionais que ingressam na área com postura de ‘então, o que vocês têm para mim?’. Meu caro, não ‘temos’ nada para ninguém, temos é que trabalhar, divulgar o que fazemos, bater de porta em porta, participar de seminários como palestrantes, organizar grupos de estudo e encontros mensais em cada canto deste país. Ainda há muito para acontecer, mas não há ninguém para fazer por nós. Por isso faço questão de tratar cada novidade que surge no mercado com respeito e dividir o que sei. Outro dia, recebi um e-mail de um profissional que queria ingressar na área. Dei dicas e sugeri que me seguisse no Twitter. Ela agradeceu, mas confessou que acha Twitter uma ‘anomalia’. Pensando assim, não se vai nem até a esquina.
E você, o que aprendeu até hoje?
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O retorno da palavra
Por Bruno Rodrigues
Passei os últimos quatro anos afirmando para os meus alunos que os tempos tinham mudado na seara do Webwriting. Que o estudo da informação para a mídia digital havia ampliado os horizontes, indo muito além da redação online.
Agora, era preciso pensar informação como algo bem mais abrangente: fotografia, ilustração, ícone, gráfico, tabela, áudio e vídeo teriam, na balança, o mesmo peso que o texto no meio digital. Afinal, era assim que o presente – e o futuro – se configurava.
Então, tudo mudou.
Como mágica, a necessidade de um relacionamento mais estreito entre as pessoas, e entre elas e informação, rearrumou as peças do tabuleiro mais uma vez. Buscar pessoas e informação virou nosso objetivo – era o fim infância da internet e havíamos passado a dominá-la, finalmente. O conceito de web participativa era a semente das mídias sociais, que germinou e transformou nossas vidas e a relação com o meio digital.
No centro da mudança, estava a palavra.
Confesso que me pegou de surpresa. Que o Google havia dominado o mundo todos já sabiam, mas que os usuários da web fossem dominar seu uso, isso muitos não esperavam – inclusive eu. As empresas logo perceberam que era prioridade nível zero estar bem rankeadas, e o SEO estourou. A intrincada tarefa de otimizar sites e blogs para os mecanismos de busca virou default para o mercado, e conhecimento essencial para os webwriters.
Mudou, também, a relação com a palavra.
Quem antes se via apenas como redator, precisou rever seus princípios. Entender a palavra como um sinalizador, muito além de um elemento de comunicação, foi a grande (e difícil, para muitos) virada. Aquele que era redator, amante da frase, precisava se ver dali em diante como um gestor da informação digital, amante da palavra.
Mas as mudanças não pararam por aí.
Quando a web havia, enfim, evoluído de um quase sempre caótico emaranhado de informações – e estávamos quase nos acostumando com isso – para um universo em vias de se tornar estruturado, as mídias sócias nos apresentaram o Twitter, apenas para reafirmar a palavra como agulha que costura a relação entre as pessoas, e entre elas e a informação. Xeque-mate.
Faço mea culpa, aqui.
Quando o Twitter surgiu, cheguei a dar algumas entrevistas duvidando que a ferramenta pudesse ser abraçada por públicos que fossem além do que chamo de “quadrilátero digital”: estudantes e professores de Comunicação Social, profissionais da área de Comunicação e Marketing Digital e geeks, é claro. Quebrei a cara – muitíssimo satisfeito, a bem da verdade!
O Twitter é a “superbonder” do relacionamento online, a liga que sedimenta de vez nosso contato. Mais uma vez, para mostrar que a palavra não tem vocação para coadjuvante, lá está ela, como recurso básico e principal da comunicação do microblog. É a palavra que dá acesso aos outros formatos, e voltamos ao início.
O texto, assim como a sua alma, a palavra, dá ao ser humano o que ele mais precisa da informação: o básico, o essencial, o principal. Por isso hoje me faço uma pergunta que não me sai da cabeça – até quando a palavra será nosso norte, nossa ferramenta primordial, nosso guia rumo ao universo da informação digital? A palavra será, mesmo, eterna?
Até ontem, não era o vídeo que ia comandar a informação? Onde foi parar a ideia de que tudo viria a partir da imagem em movimento? Agora revejo minhas conclusões, minha visão de presente, de futuro próximo.
“No início, era o verbo” – seria para sempre, então?